terça-feira, 5 de junho de 2012


UM SONHO PERTURBADOR CHAMADO "THE WALL"




Confesso que a expectativa era grande. Desde que eu soube que Roger Waters apresentaria o espetáculo "The Wall" no Brasil, um misto de inquietude e excitação tomou conta de mim. E a razão era muito simples, afinal poucos privilegiados na Europa e Estados Unidos haviam visto a atormentada ópera-rock quando de seu debut em 1980. Ainda assim, passadas algumas horas de uma experiência alucinante e envolvente, me sinto numa catarse absoluta. Será que eu vi tudo aquilo ou foi um dos melhores sonhos da minha vida?

Quando entrei no Morumbi e vi o palco com aquele enorme muro erguido, fiquei bastante emocionado. E naquele momento um turbilhão de cenas e sentimentos me invadiram por completo. Lembrei dos meus 17 anos ouvindo algumas músicas do seminal album duplo cheio de ilustrações dentro e da emoção que senti. Recordei também que três anos depois, em 1983, estava assistindo com amigos, em um cinema do centro da cidade, a "The Wall - O Filme".

Naquela época, terminado o genial filme de Alan Parker, com animação de Gerald Scarfe e música paranóica saída da cabeça de Roger Waters, minha sensação era de catarse total. Pensava como alguém conseguia traduzir paranóia & loucura em imagens e sons de modo tão perturbador e inquietante. 

E pensar que toda a ideia surgiu de uma atitude que o próprio Waters considerou como "fascista", ao incitar um garoto tresloucado para chegar próximo a ele, durante a fase final da Animals Tour em 1977: "Verme imbecil...venha para perto de mim, venha". E aí chegou perto do imberbe e cuspiu na cara dele: CUSP!!, para surpresa de Gilmour, Wright, Mason e Snowy White, o guitarrista convidado para dar apoio a base, enquanto David solava. Foi ali que Waters, esgotado e depressivo, pensou como seria tocar para um público com um muro na frente. 

E a concepção do show daquela época era algo um pouco diferente do apresentado nessa atual tour. No começo, uma falsa banda, com máscaras dos integrantes do Pink Floyd, tocavam para o público e depois eram substituídos pelos originais. Também não havia todo o inacreditável recurso de tecnologia, especialmente as imagens projetadas no muro. Mas a mensagem era a mesma: um muro vai sendo contruído aos poucos, enquanto as músicas ilustram a história do personagem Pink, atormentado pela morte do pai na Guerra, pelo mega protecionismo da mãe, pelo professor tirano, pela infidelidade da mulher, pelas pressões do show biz e por demônios totalitários. Por fim, a construção desaba, após Pink ser submetido a um julgamento absurdamente PARCIAL. 

Aquilo tudo foi o auge da criatividade de Roger Waters e também o seu declínio, uma vez que a partir dali, perdeu o controle sobre o Pink Floyd, entrando numa trip egocêntrica que durou décadas. David Gilmour disse na ocasião que não sabia se queria fazer "parte do público que assistiria aos shows", uma vez que METADE do espetáculo a banda tocaria atrás de um muro (??!!). Já Richard Wright, demitido por Waters durante as gravações de "The Wall", considerou que o baixista do Floyd havia enlouquecido.

Minhas lembranças foram interrompidas quando uma voz anunciou para todos ocuparem seus lugares porque o show iria começar. A seguir vou contar minhas impressões sobre o mega espetáculo e os principais destaques.

In the Flesh? - Uma abertura magistral. Não apenas a força da música está em xeque, mas o que está ao redor. Ouve-se barulhos ensurdecedores de aviões que ecoam num efeito de 360o em todo o estádio. O tal de som quadrifônico que é uma marca registrada, digamos assim, do Pink Floyd. A impressão que se tem é que um avião vai cair na sua cabeça a qualquer momento. E enquanto isso fogos de artifício misturavam-se com gritos de Waters e explosões no palco para, em seguida, acontecer algo assustador. Um avião se espatifa no canto direito do palco e explode. Chega a ser difícil descrever o que eu senti. Lembro que eu e meu filho demos um pulo e começamos a gritar. Dali para frente era surpresa atrás de surpresa.

Thin Ice - Imagens e registros de soldados mortos na Segunda Guerra Mundial e em outros conflitos estúpidos, como a guerra do Iraque, além de ativistas e civis são projetados na tela em forma de círculo para depois ocuparem um espaço no muro. Uma luz vermelha envolve todo o palco, para um emocionado Waters cantar: "If you should go skating, on the thin ice of modern life, dragging behind you the silent reproach of a million tear stained eyes..."

Another Brick in the Wall, Pt. 1
Happiest Days of Our Live
Another Brick in the Wall, Pt. 2 - O set mais conhecido do álbum "The Wall" e que culmina com aquele coro de crianças cantando "We Don't Need Education". O que chama atenção é o entrosamento dos guitarristas Dave Kilminster, G.E. Smith e Snowy White, especialmente quando Waters diz: "Daddy flown across the Ocean"...efeitos distorcidos de pedal e reverberação imprimem um tom misterioso em meio a gritos ecoados por toda a parte e que se misturam a outro som impressionante: o de helicópteros que parecem fazer um sobrevoo rasante no Morumbi. Enquanto isso, Waters duela seu baixo com o boneco gigantesco do professor e, quando chega a vez das crianças cantarem, elas até o fazem, ou melhor, DUBLAM, para depois provocar o " velho símbolo opressor da educação" com os punhos erguidos.



Mother - É o momento em que Waters interage com o público, lembrando o brasileiro Jean Charles de Menezes que foi assassinado em Londres no ano de 2005, confundido com um terrorista. No entanto, o baixista recorda também do show no Ears Court em 1980 e em excelente sincronia, canta a música junto com sua imagem daquela época projetada no telão. Nesse instante quem brilha é o vocalista convidado Robbie Wyckoff, que faz todos os vocais originalmente cantados por David Gilmour. E tudo isso acontece presenciado pela figura imponente e autoritária da mãe de Pink, outro dos bonecos infláveis, ali imóvel no canto esquerdo do palco, aspecto de brava, protetora.

Goodbye Blue Sky - No muro são projetadas animações de aviões que, ao invés de despejarem bombas, como aquela que vimos no filme "The Wall", liberam logotipos de empresas responsáveis por grande parte de nosso consumo, como a Shell e Mc Donald's. Emblemático. Wyckoff brilhando novamente.

Empty Spaces/What Shall We Do Now - Essa é a parte em que acontece a animação de duas flores simulando uma relação sexual. Muitas animações de Gerald Scarfe projetadas no muro e o canto desesperado de Waters: What shall we use to fill the empty spaces, where waves of hunger roar? shall we set out across the sea of faces, in search of more and more applause? É importante citar como as animações ganham consistência na versão século 21 de "The Wall", quando comparadas com os shows de 1980/81.

Young Lust - Tanto na letra quanto nas imagens do filme homônimo de 1982, essa música representa toda a luxúria que envolve os rockstars, cercada por groupies dispostas a tudo. Imagens de belas e sensuais mulheres são projetadas no muro, algumas delas nuas. E da-lhe guitarras!! White, Smith e Killminster brilhando.



One of My Turns - Waters personifica Pink a beira da loucura. As referências aqui não limitam-se apenas ao fato da desesperada interpretação vocal do ex baixista do Floyd, mas de sua verve artística. Ele é o próprio Pink, atormentado por seus demônios interiores e que tenta exorcizá-los questionando para a interlocutora que, no filme, é uma das groupies que invadem seu "apartamento": 
Would you like to call the cops? Do you think it's time I stopped? E depois grita com toda intensidade de sua dor: Why are you running awaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaay?

Don't Leave me Now - O palco todo escuro e luz apenas em Waters. No canto direito da tela o rosto de uma mulher parece fitá-lo com indiferença. Sabe-se, inteirando-se da história, que ali está projetada a esposa de Pink e que o momento não favorece o personagem central. Ela o trai e está disposta a ir. Roger desespera-se: 
Don't say it's the end of the road...Remember the flowers I sent...I NEED you, babe...em lamento perturbador e ecos que insistiam nos pedidos além do amor próprio, para dar sequência a um belo solo de White e a imagem de um boneco inflável que representa sua mulher: distorcida, nua, lasciva, infiel...definitivamente insensível. Seu rosto, no entanto, se desfaz como se derretesse, bem como tudo por ali. O piano de Jon Carin e os sintetizadores de Harry Waters dão todo o clima intimista que o momento exige.



Another Brick in the Wall - pt 3
The Last Few Bricks
Goodbye Cruel World - Com o muro quase todo levantado, ainda existe espaço para White e G.E. Smith brilharem com solos rascantes, em meio a uma fantástica movimentação cênica e novas idílicas projeções no muro. Waters diz antes de ser colocado o último tijolo: "There's nothing you can say to make me change my mind ....Goodbye!!!

FIM DA PRIMEIRA PARTE


UM SONHO PERTURBADOR CHAMADO "THE WALL" (p2)



Após o intervalo de 20 minutos o sonho para tantos e epílogo do pesadelo de Pink recomeçou. Nesta fase, saberemos o que acontece ao personagem central e qual seu destino. E para contar tudo isso, o espetáculo "The Wall" assume proporções ainda mais assombrosas e intimistas, realçada pelos efeitos pirotécnicos e som levado as últimas (in) consequências. Pobre, Pink...

Hey You - A belíssima música que abre a segunda parte do show é algo questionador. Do ponto de vista instrumental/vocal ela é perfeita. Wyckoff fazendo os vocais de Gilmour e Waters cantando a segunda parte. Existe uma coesão fantástica entre o som de baixo, violão e guitarra nesssa parte, tocados de modo impecável. No entanto, na parte cênica não acontece praticamente nada. Com todos os músicos e Waters atrás do muro, resta ao público observar algo estático. A construção parece sedimentada em pedra. Pink está lá dentro protegido de todos os seus medos. "Together We Stand, Divided We Fall!!!!" alerta Waters ao final.

Is there Anybody Out There? Ao mesmo tempo que a frase ecoa no estádio, dois olhos questionadores aparecem projetados no muro. Sons parecidíssimos com as passagens mais surreais da suite "Echoes" do álbum Meddle do Pink Floyd são ouvidos em toda parte. De repente, dois blocos saem do muro e aparecem as figuras de Dave Killminster e G.E. Smith duelando em belíssimo solo de violão/guitarra, envoltos em uma tênue luz azul.

Nobody Home - Essa é a parte em que Waters, suspenso no lado esquerdo do muro, canta sentado ao lado de um abajur. O tom é ainda mais intimista. "I've got wild staring eyes, and I've got a strong urge to fly, but I got nowhere to fly to.Ooooh, babe when I pick up the phone...". Analisando do ponto de vista da história em si, é o momento que o personagem Pink parece abandonar suas próprias convicções e esperanças.

Vera
Bring the Boys Back Home - Duas canções quase interligadas em circunstâncias bastante emocionais. Imagens FORTES de pessoas revendo entes queridos voltando de guerras, arrancam lágrimas de algumas pessoas na plateia. No entanto se as fotos projetadas podem revelar alegria também criam um paradoxo de desolação e tristeza. Waters pergunta: Does anybody here remember Vera Lynn?? Remember how she said that we would meet again, some sunny day? Vera Lynn era uma cantora inglesa que animava os soldados com uma canção chamada "We'll Meet Again" e que desapareceu misteriosamente durante a Segunda Guerra Mundial. A música que vem a seguir pede do modo mais dramático e doloroso possível para que os soldados voltem ao aconchego do lar e familiares! Os teclados de Carin e Waters são fundamentais nessa hora.

Confortably Numb - O pré-climax do espetáculo. Na verdade um diálogo entre um médico e Pink, a essa altura do campeonato totalmente mergulhado em sua depressão e em estado de letargia plena. Nos shows de 1980/81, Waters usava uma roupa de médico e, virado para a parede, conversava com sua sombra, enquanto que na segunda parte, Gilmour aparecia na parte de cima do muro cantando. Aqui as coisas acontecem parecidas, porém Roger não mais é o doutor, preferindo andar pelo palco e incitando o público a cantar junto com ele. Nem preciso dizer que muita gente chorou, se abraçou, enfim...emoção pura! E, para ajudar, é projetado no muro um efeito maravilhoso de explosão, enquanto aquele solo de guitarra quilométrico e climático invade os ouvidos de todos. 



Show Must Go On - ooooohhh ma...ooohhhh pa...backing vocals fantásticos e imagens daquilo que seria uma prisão são projetadas no muro. Carin e Waters brilhando novamente. É a calmaria antes do pesadelo final.

In the Flesh - Pink pira de vez. Vestido com um casaco preto com o simbolo dos martelos, Waters personifica o personagem central da trama, assumindo todo o preconceito, loucura e arrogância de um general a beira de um orgasmo de poder. O seu muro particular está definitivamente SÓLIDO. É a transformação daquilo que sempre odiou, fazendo uma viagem sem volta ao seu sub consciente. Ditador, ele ordena que homossexuais, negros, drogados e judeus sejam colocados contra o muro. Paranóia total!

Run Like Hell - E por falar em paranóia, um aviso no muro questionava: "Existem muitos paranóicos aqui na plateia"? Penso que muita gente, inclusive eu, estavam alucinados para gritar "RUN, RUN, RUN" nessa hora. Aliás, daqui para frente o publico é fundamental para o desfecho da ópera rock. Suas manifestações serão importantes desde gritos com os punhos em forma de martelo até o julgamento de Pink. White e Kilminster arrasam em suas guitarras nesse instante, porque é uma música que exige demais desse instrumento, além dos vocais de Waters duelarem com Wyckoff e dos sintetizadores de Carin: Feel the bile rising from your guilty past, with your nerves in tatters, when the cockleshell shatters, and the hammers batter down the door...You better run!!!! 

O porco é solto no estádio...

Waiting for the Worms/ Stop! - O pesadelo vai se solidificando, consumindo, incomodando e também se definindo. Waters, tomado pelo personagem Pink, ordena, por meio de um megafone, ataques às classes minoritárias. A loucura chega ao limite do insuportável e o público se envolve, hipnotizados pelo carisma fascista e sonhos de poder de Pink. Só que ele não mantém essa viagem por muito tempo e GRITA: PAREM!!!!! EU QUERO IR PARA CASA!!! QUERO TIRAR ESSE UNIFORME E SAIR DESSE SHOW. E SE EU ESTOU AQUI PRESO É PORQUE FUI CULPADO O TEMPO TODO!!

The Trial - A cena do julgamento de Pink. É interessante citar como a tecnologia ajuda nesse momento em relação aos show de 1980. Naquela época, três telas ocupavam a extensão do muro para mostrar a animação surreal de um juiz com cara de bunda e culhões, ditando regras de pretensas "verdades". Agora, tudo é projetado de uma só vez. Lá no chão, imóvel, largado, indefeso, ilustrado como um boneco sem vida, Pink é julgado parcialmente por seus erros. A mulher infiel, o professor, a mãe...todos estavam certos. Errado era ele em ser o que é. Por isso "desde que, meu amigo, você revelou seu medo mais profundo, eu lhe sentencio a se expor aos seus semelhantes. Derrubem o muro!".

TEAR DOWN THE WALL!!! TEAR DOWN THE WALL!!! TEAR DOWN THE WALL!!!!!! a plateia grita.

Bem, o que acontece agora é algo previsto mas que tem um impacto fortíssimo em cada um que assistiu ao show: a queda do muro e a crucificação de Pink. O sistema venceu novamente e eu mais milhares de pessoas fomos ao delírio. É impossível descrever algum sentimento nesse instante, mas posso definir como um misto de mágoa, revolta, loucura, catarse...tudo juntos em um liquidificador idílico. Waters deixou todos ali boquiabertos. Não havia mais o que dizer. O homem do Pink Floyd é um gênio!

Outside the Wall - Em meio aos escombros do muro, Waters aparece tocando trompete, juntamente com sua banda. Em seguida agradece e apresenta os músicos. Foi o último show no Brasil e provavelmente a única e última vez que os brasileiros tiveram oportunidade de ver algo tão sublime como esse mega espetáculo. Um rapaz, que foi sózinho ao show e sentou próximo a mim gritava emocionado: "Eu vivi para ver isso!!!". Acho que ele disse tudo.