Após o intervalo de 20 minutos o sonho para tantos e epílogo do pesadelo de Pink recomeçou. Nesta fase, saberemos o que acontece ao personagem central e qual seu destino. E para contar tudo isso, o espetáculo "The Wall" assume proporções ainda mais assombrosas e intimistas, realçada pelos efeitos pirotécnicos e som levado as últimas (in) consequências. Pobre, Pink...
Hey You - A belíssima música que abre a segunda parte do show é algo questionador. Do ponto de vista instrumental/vocal ela é perfeita. Wyckoff fazendo os vocais de Gilmour e Waters cantando a segunda parte. Existe uma coesão fantástica entre o som de baixo, violão e guitarra nesssa parte, tocados de modo impecável. No entanto, na parte cênica não acontece praticamente nada. Com todos os músicos e Waters atrás do muro, resta ao público observar algo estático. A construção parece sedimentada em pedra. Pink está lá dentro protegido de todos os seus medos. "Together We Stand, Divided We Fall!!!!" alerta Waters ao final.
Is there Anybody Out There? Ao mesmo tempo que a frase ecoa no estádio, dois olhos questionadores aparecem projetados no muro. Sons parecidíssimos com as passagens mais surreais da suite "Echoes" do álbum Meddle do Pink Floyd são ouvidos em toda parte. De repente, dois blocos saem do muro e aparecem as figuras de Dave Killminster e G.E. Smith duelando em belíssimo solo de violão/guitarra, envoltos em uma tênue luz azul.
Nobody Home - Essa é a parte em que Waters, suspenso no lado esquerdo do muro, canta sentado ao lado de um abajur. O tom é ainda mais intimista. "I've got wild staring eyes, and I've got a strong urge to fly, but I got nowhere to fly to.Ooooh, babe when I pick up the phone...". Analisando do ponto de vista da história em si, é o momento que o personagem Pink parece abandonar suas próprias convicções e esperanças.
Vera
Bring the Boys Back Home - Duas canções quase interligadas em circunstâncias bastante emocionais. Imagens FORTES de pessoas revendo entes queridos voltando de guerras, arrancam lágrimas de algumas pessoas na plateia. No entanto se as fotos projetadas podem revelar alegria também criam um paradoxo de desolação e tristeza. Waters pergunta: Does anybody here remember Vera Lynn?? Remember how she said that we would meet again, some sunny day? Vera Lynn era uma cantora inglesa que animava os soldados com uma canção chamada "We'll Meet Again" e que desapareceu misteriosamente durante a Segunda Guerra Mundial. A música que vem a seguir pede do modo mais dramático e doloroso possível para que os soldados voltem ao aconchego do lar e familiares! Os teclados de Carin e Waters são fundamentais nessa hora.
Confortably Numb - O pré-climax do espetáculo. Na verdade um diálogo entre um médico e Pink, a essa altura do campeonato totalmente mergulhado em sua depressão e em estado de letargia plena. Nos shows de 1980/81, Waters usava uma roupa de médico e, virado para a parede, conversava com sua sombra, enquanto que na segunda parte, Gilmour aparecia na parte de cima do muro cantando. Aqui as coisas acontecem parecidas, porém Roger não mais é o doutor, preferindo andar pelo palco e incitando o público a cantar junto com ele. Nem preciso dizer que muita gente chorou, se abraçou, enfim...emoção pura! E, para ajudar, é projetado no muro um efeito maravilhoso de explosão, enquanto aquele solo de guitarra quilométrico e climático invade os ouvidos de todos.
Show Must Go On - ooooohhh ma...ooohhhh pa...backing vocals fantásticos e imagens daquilo que seria uma prisão são projetadas no muro. Carin e Waters brilhando novamente. É a calmaria antes do pesadelo final.
In the Flesh - Pink pira de vez. Vestido com um casaco preto com o simbolo dos martelos, Waters personifica o personagem central da trama, assumindo todo o preconceito, loucura e arrogância de um general a beira de um orgasmo de poder. O seu muro particular está definitivamente SÓLIDO. É a transformação daquilo que sempre odiou, fazendo uma viagem sem volta ao seu sub consciente. Ditador, ele ordena que homossexuais, negros, drogados e judeus sejam colocados contra o muro. Paranóia total!
Run Like Hell - E por falar em paranóia, um aviso no muro questionava: "Existem muitos paranóicos aqui na plateia"? Penso que muita gente, inclusive eu, estavam alucinados para gritar "RUN, RUN, RUN" nessa hora. Aliás, daqui para frente o publico é fundamental para o desfecho da ópera rock. Suas manifestações serão importantes desde gritos com os punhos em forma de martelo até o julgamento de Pink. White e Kilminster arrasam em suas guitarras nesse instante, porque é uma música que exige demais desse instrumento, além dos vocais de Waters duelarem com Wyckoff e dos sintetizadores de Carin: Feel the bile rising from your guilty past, with your nerves in tatters, when the cockleshell shatters, and the hammers batter down the door...You better run!!!!
O porco é solto no estádio...
Waiting for the Worms/ Stop! - O pesadelo vai se solidificando, consumindo, incomodando e também se definindo. Waters, tomado pelo personagem Pink, ordena, por meio de um megafone, ataques às classes minoritárias. A loucura chega ao limite do insuportável e o público se envolve, hipnotizados pelo carisma fascista e sonhos de poder de Pink. Só que ele não mantém essa viagem por muito tempo e GRITA: PAREM!!!!! EU QUERO IR PARA CASA!!! QUERO TIRAR ESSE UNIFORME E SAIR DESSE SHOW. E SE EU ESTOU AQUI PRESO É PORQUE FUI CULPADO O TEMPO TODO!!
The Trial - A cena do julgamento de Pink. É interessante citar como a tecnologia ajuda nesse momento em relação aos show de 1980. Naquela época, três telas ocupavam a extensão do muro para mostrar a animação surreal de um juiz com cara de bunda e culhões, ditando regras de pretensas "verdades". Agora, tudo é projetado de uma só vez. Lá no chão, imóvel, largado, indefeso, ilustrado como um boneco sem vida, Pink é julgado parcialmente por seus erros. A mulher infiel, o professor, a mãe...todos estavam certos. Errado era ele em ser o que é. Por isso "desde que, meu amigo, você revelou seu medo mais profundo, eu lhe sentencio a se expor aos seus semelhantes. Derrubem o muro!".
TEAR DOWN THE WALL!!! TEAR DOWN THE WALL!!! TEAR DOWN THE WALL!!!!!! a plateia grita.
Bem, o que acontece agora é algo previsto mas que tem um impacto fortíssimo em cada um que assistiu ao show: a queda do muro e a crucificação de Pink. O sistema venceu novamente e eu mais milhares de pessoas fomos ao delírio. É impossível descrever algum sentimento nesse instante, mas posso definir como um misto de mágoa, revolta, loucura, catarse...tudo juntos em um liquidificador idílico. Waters deixou todos ali boquiabertos. Não havia mais o que dizer. O homem do Pink Floyd é um gênio!
Outside the Wall - Em meio aos escombros do muro, Waters aparece tocando trompete, juntamente com sua banda. Em seguida agradece e apresenta os músicos. Foi o último show no Brasil e provavelmente a única e última vez que os brasileiros tiveram oportunidade de ver algo tão sublime como esse mega espetáculo. Um rapaz, que foi sózinho ao show e sentou próximo a mim gritava emocionado: "Eu vivi para ver isso!!!". Acho que ele disse tudo.



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